Carta Manifesto de Indígenas Mulheres do Rio Negro

Mulheres indígenas debateram saúde e protagonismo feminino indígena na pandemia de Covid-19|Ray Baniwa/Foirn

Sobre a solicitação de Delegada Mulher em São Gabriel da Cachoeira/AM

Nós, indígenas Mulheres, reunidas na VIII – Assembleia Eletiva do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), no município de São Gabriel da Cachoeira, representamos 91 associações e 750 comunidades indígenas, discutimos nossas pautas especificas, que são voltadas aos nossos direitos. Avaliamos e deliberamos que há uma necessidade da nomeação de uma nova DELEGADA MULHER para trabalhar conosco no atendimento contra a violência sexual e doméstica e discriminação contra a indígena Mulher. Nós cada vez mais estamos nos e empoderando sobre os nossos direitos. Nos últimos 02 anos, tivemos uma delegada que dialogou e acompanhou a indígenas mulheres vítimas de violência domesticas e outras violências, que consideramos importante continuar.

Nosso município e nas comunidades indígenas, segundo a delegada Dra. Grace Jardim, apresenta alto índice de violência e violações de direitos das mulheres, sabemos que isso é devido em razão da falta de conhecimento de direitos e em razão da cultura machista de nossa sociedade. É primordial que o atendimento às mulheres pelo sistema de Segurança Pública seja realizado por uma mulher, pois somente assim nos sentimos acolhidas, como também

É importante também que exista na Delegacia um atendimento especializado à mulher, com psicólogas, assistente social, Casa da Mulher, e outros atendimentos especializados no combate e enfrentamento à violência doméstica.

Nós reivindicamos, ainda, que o Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) da FOIRN, possa acompanhar diretamente a política pública voltada aos direitos das mulheres, especialmente, as ações relacionadas à Segurança Pública, para melhor acesso ao sistema de justiça, com o direito de denunciar e oferecer a nossa parenta um acolhimento humanizado, para se sentir protegida. Isso que queremos.

Reivindicamos também uma Defensora Pública Mulher no município de São Gabriel da Cachoeira para que possa juntamente com a Delegada oferecer uma proteção a nossos direitos da mulher, pois vivemos em uma área muito remota e necessitamos de acesso à Justiça. Nossas parentes não têm condições de ir até a capital Manaus, sendo obrigação do Estado oferecer assistência jurídica no nosso município, como também aos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

Além de trabalhar com o departamento, vimos a necessidade de uma Secretaria da Mulher que dialogue diretamente com as Organizações Indígenas, no processo de formação e acesso a seus direitos, com a promoção de cursos e oficinas em linguagem acessível, garantindo a interculturalidade, para que todas as famílias e mulheres possam ser parte participante dessa política de atendimento as mulheres e acesso a seus direitos.

E nesse sentindo encaminhamos e aprovamos essa solicitação, para maior credibilidade segue a nossas assinaturas, por cada regional que ecoam vozes diversas das mulheres de 23 povos indígenas no Rio Negro.

Saudações Indígenas das Mulheres do Rio Negro.

São Gabriel da Cachoeira, 30 de outubro de 2020.

Saiba mais: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/mulheres-indigenas-do-rio-negro-fazem-chamado-a-autonomia-precisamos-perder-o-medo-de-falar

O passado e o futuro por meio da cerâmica Baniwa

Em oficina, mestres ceramistas e jovens aprendizes trocam conhecimento sobre as pinturas tradicionais das peças

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Nazária Fontes (Baniwa), presidente da Umira, apresenta peças produzidas durante I encontro de ceramistas da Umira, novembro de 2018 | Natália C. Pimenta

De 5 a 11 de novembro, a comunidade São Joaquim do Rio Ayari, localizada na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), sediou o II Encontro de Ceramistas da União das Mulheres Indígenas do Rio Ayari (Umira). O objetivo do evento foi compartilhar o conhecimento da arte de produção da cerâmica branca feita pelas mulheres Baniwa do Alto Rio Negro entre mestres ceramistas e jovens aprendizes, valorizando os grafismos tradicionais baniwa empregados nos artefatos cerâmicos.

Além da coloração clara, a cerâmica produzida pelas mulheres Baniwa da região possui uma grande diversidade de padrões gráficos de coloração vermelho-alaranjado, que enfeitam cada uma das peças, confeccionadas para as mais distintas finalidades. Entretanto, muitas das jovens baniwa relatam não conhecer as pinturas tradicionais. Muitas sequer dominam as etapas do longo processo de obtenção de materiais e confecção das peças.

Esse e outros desafios relativos à produção de cerâmica na região do Rio Içana e Ayari já haviam sido levantadas pelas ceramistas da Umira na primeira reunião de mulheres para discutir o tema em 2007 (veja reportagem aqui). De acordo com as mestras ceramistas que ainda vivem nas comunidades da bacia do Içana, a cerâmica deixou de ser cotidianamente usada no momento em que as panelas de metal começaram a chegar em suas casas. Essa mudança de hábitos nas cozinhas baniwa provocou uma ruptura na transmissão do conhecimento sobre a arte de produção de cerâmica branca e o domínio sobre as pinturas foi quase completamente esquecido”Hoje os espaços como esse são importantes para nós adolescentes, por que nascemos e vivemos com utensílios de cozinha industrializados, não temos oportunidade de aprender estes conhecimentos em nossas casas com nossa família”, afirma Gracimar Lopes.

Para reverter este cenário, em 2014, um grupo de conhecedores e ceramistas baniwa, representadas por Nazária Fontes, Carolina Andrade e Maria de Lima, tiveram a oportunidade de visitar o acervo etnográfico do Museu do Índio (veja matéria completa aqui) para conhecer as peças produzidas antigamente na região do Içana. A atividade coordenada pelo antropólogo Thiago Oliveira teve como objetivo colocar as mulheres em contato com as mais de 100 peças recolhidas por colecionadores que estiveram na região do Alto Rio Negro ao longo do século XX, como Gastão Cruls e Eduardo Galvão, que reuniram expressivas coleções de cerâmica nos anos 1950.

A visita esteve centrada no reconhecimento das formas dos objetos e no registro dos padrões gráficos na cerâmica baniwa, tendo em vista a recuperação do vocabulário gráfico e de outras informações resguardadas nesses artefatos. A visita foi seguida de uma oficina de produção de uma nova coleção para o Museu do Índio, realizada ainda em 2014, que reuniu mais de 100 novas peças e possibilitou o contato com a cadeia produtiva da cerâmica para cerca de dez ceramistas reunidas em São Joaquim, Médio Ayari.

A partir da visita ao Museu do Índio as mestras ceramistas retomaram as pinturas cerâmicas, mas faltava que as mais jovens conhecessem os significados das pinturas. Então, através da rede de pesquisadores indígenas da bacia do Rio Içana (iniciativa do ISA e FOIRN) foi organizado um encontro entre ceramistas, conhecedores locais e pesquisadores indígenas com o objetivo de desenvolver os conhecimentos relativos às técnicas de elaboração dos padrões gráficos tradicionais da cerâmica branca, e também debater os desafios para a comercialização desta produção em escala regional e nacional.

“Vocês, jovens, têm que praticar este conhecimento com ânimo para valorizar o nosso
trabalho e a nossa história. Agradeço aos que incentivam a nossa iniciativa”, diz Genezia da Silva, mestre ceramista.

O encontro contou com a presença de 12 pesquisadores indígenas e 26 ceramistas de dez comunidades localizadas no Rio Ayari e seus afluentes. O grupo de ceramistas, constituído por 11 jovens aprendizes, de até 29 anos, seis ceramistas experientes, de 30 a 40 anos e 10 mestres ceramistas, com mais de 40 anos, resultou do esforço de mobilização de Nazária Fontes (Baniwa, do clã Hohodene) que é ceramista e atual presidente da Umira.

“A oficina trouxe fortalecimento e valorização das práticas de conhecimentos das nossas
cerâmicas e grafismos originários. Com iniciativas de produção reconhecemos a nossa
própria identidade cultural”, diz Nazária Fontes.

A cerâmica branca e a cerâmica preta

A cerâmica branca produzida pelas mulheres Baniwa é a marca da cultura material dos povos Arawak. As peças brancas com pinturas alaranjadas contrastam com a cerâmica preta e pinturas em negativo produzidas pelas mulheres dos povos Tukano (saiba mais sobre a cerâmica Tukano aqui), com as quais os Baniwa e outros diversos povos indígenas compartilham o território do Alto Rio Negro na fronteira do Brasil com a Colômbia.

Apesar da cerâmica branca ser produzida exclusivamente pelas mulheres baniwa da bacia do Rio Negro, a cerâmica preta enegrecida por esfumaçamento não é estranha ás ceramistas Baniwa. A técnica de acabamento da cerâmica preta, que impermeabiliza a peça, é também empregada na região do Rio Içana e Ayari (território Baniwa), especialmente em panelas usadas para o cozimento de alimentos.

O antropólogo Thiago Oliveira (Museu do Índio) sugere que esta técnica de produção de cerâmica decorada por meio do esfumaçamento pelas mulheres baniwa seja uma evidência do intercâmbio promovido pelo casamento entre os Baniwa do Rio Ayari com os Wanano e Kubeu do Uaupés, cujas mães e avós são de origem Tukano Oriental (“Os Baniwa, os artefatos e a cultura material no Alto Rio Negro” – Oliveira, 2015).

Cerâmica cerimonial

A cerâmica branca produzida pelas mulheres baniwa possui acabamento vitrificado produzido por meio do uso de resinas vegetais, seja o arbusto oomapihitako, seja a seiva do jutaí, wakhamaali, planta da família do jatobá. Esta resina funciona como verniz, protegendo a peça como um todo do desgaste provocado pelo uso. Ela é aplicada após a queima da peça, por meio de um cuidadoso aquecimento. A pintura – grafismos geométricos aplicados no interior ou exterior dos potes de acordo com o tipo e o uso – é feita antes da queima, quando a peça ainda possui um aspecto cinza, da cor da massa cerâmica composta de argila (encontrada em raros depósitos espelhados pela região do Aiari) e a casca do caraipé (kawa, em baniwa).

A decoração é feita com um pigmento resultado da mistura de uma argila amarela chamada eewa, em baniwa, com um líquido ácido, que pode provir do caldo de mandioca amarga (manicoera), do suco de limão ou do suco do cubiú. Oliveira acredita que o uso deste caldo permita a oxidação do pigmento durante a queima, o que resulta na transformação da sua cor inicialmente amarela em uma tonalidade vermelha-alaranjada durante o processo da queima das peças.

Este tipo de cerâmica, rica em ornamentação gráfica, é reservada para uso cerimonial, sobretudo em rituais como o dabucuri (poodali) e o ritual de iniciação (kowaipan). Durante o dabucuri são ofertados alimentos e artefatos aos convidados como sinalização de boa estima, enquanto nos rituais de iniciação são ofertados alimentos benzidos (kalidzamai) aos homens e às mulheres que saem de um longo jejum realizado durante o resguardo ritual. Em ambas ocasiões, os alimentos e bebidas são servidos nestas cerâmicas cerimoniais apresentadas em forma de tigelas (akhepa, paratto, mapoapi), bilhas (tsolooda), taças (kérapi e kérapi dzamaapi peeri) e moringas (kaphiaroda).

A cerâmica e o trançado, ambos usados nas cerimônias de iniciação e ofertados nos dabucuris, se encontram também em diversos momentos do cotidiano das mulheres baniwa. Na cozinha, as tigelas recolhem o suco da mandioca extraído com o tipiti, o abano serve de base para tirar o beiju feito no forno, a peneira separa a massa de mandioca que, torrada no forno de barro, se transforma em farinha.

Entretanto, a produção de artefatos trançados a partir da fibra de arumã (Ischonospihon spp.) é uma atividade de compete aos homens. Essa complementariedade, há muito conhecida pelos Baniwa, incentivou os homens que acompanhavam suas esposas e filhas durante o encontro na comunidade São Joaquim do Ayari a irem em busca de arumã (em baniwa, poapoa) para a confecção de cestos, balaios, aturás e abanos que pudessem acompanhar as peças cerâmicas produzidas pelas mulheres.

Ao final de seis dias de atividades conjuntas, foram produzidas quase 100 peças de cerâmica branca pelas mulheres baniwa do Rio Ayari. Porém, cerca de 400 km de rio e pedras separam as produtoras do centro comercial mais próximo. No percurso, há seis cachoeiras a serem enfrentadas até a chegada a sede do município de São Gabriel da Cachoeira, implicando na necessidade de descarregar e recarregar o bongo (canoa grande) que transporta os objetos.

Garantir a integridade das peças é o primeiro desafio na comercialização da cerâmica produzida em uma das regiões mais ermas do Brasil.

Desta vez, as peças chegaram intactas graças ao zelo das produtoras no embalo das cerâmicas. Em São Gabriel da Cachoeira, a produção foi encaminhada a loja Wariró – Casa de Produtos Indígenas do Rio Negro, gerida pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), à qual a Umira é filiada. Em Manaus também será possível conferir uma amostra da produção de artesãos e artesãs baniwa na Galeria Amazônica.

Segundo Nazária Fontes, iniciativas como esta ajudam no fortalecimento da cadeia produtiva da cerâmica, que representa uma forma de viabilizar a autonomia das organizações indígenas na gestão de iniciativas de geração de renda para as mulheres baniwa.

Esta e outras atividades para fortalecer a cadeia do artesanato rionegrino, em especial a da cerâmica baniwa, vem recebendo o suporte do projeto “Territórios da Diversidade”, uma iniciativa do ISA e da FOIRN, com apoio da União Europeia. Até 2020, o propósito será facilitar a gestão e a operação de infraestruturas de produção e comercialização dos objetos tradicionais de vários povos do Rio Negro, dentre os quais a cerâmica ocupa lugar de grande destaque.

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Germano Lima (direita acima) trançando aturás para transporte das cerâmicas | Natalia C. Pimenta – ISA

Padrões gráficos da cerâmica Baniwa

padroes_graficosA decoração com padrões gráficos é uma característica de diversos objetos produzidos na região do Alto Rio Negro. Cestos, instrumentos musicais, raladores, paredes das malocas e, claro, a cerâmica, recebem este tratamento tanto entre os povos Tukano quanto entre os povos Arawak. Estes desenhos têm ligações diferentes com seus referentes, ora representam a pegada de um pássaro, ora apontam para o movimento circular das águas ou o vôo das borboletas. Por vezes, contudo, alguns deles possuem apenas nomes próprios que não estão relacionados a nenhum referente fora do universo gráfico, como os padrões mais comumente observados nas cerâmicas baniwa, aqueles que recebem o nome de diakhe e ashaipa.

Por Natalia Pimenta, com colaboração do Thiago Oliveira e Adeilson Lopes

Publicado originalmente em: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-rio-negro/o-passado-e-o-futuro-por-meio-da-ceramica-baniwa

 

 

Movimento indígena do Rio Negro realiza XVI Assembleia Geral

Entre os dias 27 de novembro e primeiro de dezembro, em Santa Isabel do Rio Negro (AM), o maior encontro de lideranças indígenas do Noroeste Amazônico validará o PGTA Waçu, plano de gestão territorial e ambiental das TIs do alto e médio rio Negro

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A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), que representa 90 associações de base e 750 comunidades indígenas dos municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, realiza sua XVI Assembleia Geral. (Veja  a programação).
São esperados cerca de 300 participantes, como lideranças dos 23 povos indígenas que a Foirn representa, organizações parceiras do movimento indígena e autoridades públicas. Essa Assembleia será de grande importância para os povos do Rio Negro, significando o ponto alto de um processo de ampla participação na elaboração dos PGTAS de sete Terras Indígenas e do PGTA da região de abrangência da FOIRN, nomeado de PGTA Waçu.
Desde 2015, a Foirn junto com a Funai e o Instituto Socioambiental (ISA) vem elaborando os PGTAs das terras indígenas do Alto Rio Negro, Rio Apapóris, Balaio, Cué-Cué Marabitanas, Médio Rio Negro I e II e Rio Téa. Todo o processo de elaboração dos PGTAs vem sendo divulgado pelos boletins “Governança e Bem Viver Indígena”, em versão impressa e digital.

Veja as 4 edições já divulgadas:
Volume 1: https://isa.to/2BYaLit
Volume 2: https://isa.to/2N4VyRm
Volume 3: https://isa.to/2C6A1DA
Volume 4: https://isa.to/2PLJDpP

Sobre o PGTA
O documento PGTA é um marco histórico, que registra de forma clara e resumida o que foi encaminhado e recomendado no processo de diálogo e acordos entre as comunidades. É desejável que seja interpretado como processo, e incorporado como um documento a ser revisitado de tempos em tempos, bem como aprofundado e adaptado para sub-regiões e realidades diversas de uma terra indígena. Os PGTAs são importantes instrumentos da Política Nacional de Gestão Ambiental e Territoriais das Terras Indígenas (PNGATI).

Sobre a PNGATI
É um decreto federal, n°7747 de 2012, assinado pela presidência da república e pelos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente. Seu objetivo é garantir e promover a proteção, a recuperação, a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais das terras e territórios indígenas, assegurando a integridade do patrimônio indígena, a melhoria da qualidade de vida e as condições plenas de reprodução física e cultural das atuais e futuras gerações dos povos indígenas, respeitando sua autonomia sociocultural, nos termos da legislação vigente.

Em Iauaretê, lideranças indígenas exigem ao governo Colombiano providências sobre os abusos praticados pelo exército

Durante a XIII Assembleia Subregional da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê (Coidi) teve uma mesa de debate sobre a situação do trânsito de moradores entre Brasil e Colômbia com a presença do responsável pela Aduana colombiana e o Exército Brasileiro. Isto pois foram relatadas diversas situações de abuso de poder e tomada de produtos e bens dos moradores que têm familiares e roças na parte colombiana. Foi aprovado um documento exigindo a tomada de medidas para evitar tais situações que foi encaminhado para as autoridades responsáveis da Colômbia (governador do Vaupés, Ministério do interiores e Exército). Segue a carta abaixo:

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Mesa de debate sobre os problemas enfrentados no território transfronteiriça. Foto: Ray Baniwa

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Iauaretê, 21 de setembro de 2018

A Sua Excelência o Senhor,

Jesús Maria Vasquez Caicedo- Governador do Vaupés

 C/C:

  • Wiener Bustos (Política Fronteriza Departamental);
  • Coronel Orlando Fonseca (Ejercito Nacional);
  • Carlos Javier Bojaca (Defensoria del Pueblo);
  • Mercedes Alvarez (Secretaria Govierno Departamental);
  • Organizacion Nacional Indígena de Colombia – ONIC;
  • Organizacion de los Pueblos Indigenas de Amazonia Colombiana – OPIAC;
  • Simon Valencia (Representante Legal – Govierno Proprio);
  • Injeniero Miguel Villamil (C.D.A);
  • Hernan Guerrero – Presidente da ACAZUNIP

Nós, moradores da região da Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê – COIDI, reunidos na XIII Assembleia Sub-regional de Validação do Plano de Gestão Territorial Ambiental da região da COIDI, vimos por meio deste manifestar descontentamento com as práticas que consideramos abusivas adotadas pelo exército colombiano instalado em Yavarete (Colômbia) durante revistas que acontecem com as famílias indígenas brasileiras que sobem e descem os rio Uaupés e Papuri.

Muitos moradores da região, inclusive moradores atuais do lado brasileiro mas com comunidades e sítios tradicionais do lado colombiano, têm sido alvo de revistas desrespeitosas, com danos aos itens transportados, e casos de retenção de alguns itens sem justificativa ignorando os direitos dos indígenas, e até mesmo ignorando a apresentação de documentação que comprove a posse legal do item.

Ressaltamos que na maioria dos casos de revista ocorre a retenção de armas de caça, embora tenhamos documentação que comprove a posse legal destas, pois, ao contrário do que pensam os militares do exército colombiano, as armas que possuímos não são para nos organizarmos como grupos armados e sim para provermos alimentação das nossas famílias, por isso, queremos o retorno dessas armas que foram retidas pelos militares por ser da nossa utilidade. Noutros casos, ocorrem também a retenção de motosserras que utilizamos para abertura de roçados e para retirada de madeira para construção das nossas casas, lembrando que nós povos indígenas dessa região somos os principais guardiões das florestas, portanto, não desmatamos as nossas florestas da forma como fazem os fazendeiros. Além disso, as terras que ocupamos no lado Colombiano são terras que ocupamos desde a nossa ancestralidade, por essa razão continuamos utilizando até hoje e precisamos ser respeitados.

Da mesma forma, são os lugares nos quais armamos nossas armadilhas de pesca como é o caso de cacuri, caiá, matapi entre outros. Por outro lado, com a chegada de militares na nossa região, os nossos roçados não são mais respeitados, porque, quando os soldados passam nas proximidades dos roçados vão retirando tudo que nelas existem sem a nossa permissão, a exemplo de abacaxi, banana, cara, milho e cana. Além disso, precisamos ser consultados antes do desenvolvimento de qualquer atividade ou projeto do governo colombiano que possa envolver a cultura dos povos indígenas dessa região e das suas territorialidades conforme assegura a convenção 169 da OIT.        

Assim, exigimos que as autoridades colombianas tomem as providências necessárias no sentido de corrigir tais práticas abusivas do exército colombiano, e encaminhamento de diálogo para estabelecimento de acordos binacionais e regras de convivência entre indígenas e militares, garantindo assim o respeito e os direitos dos moradores da região da COIDI.

Leia mais: COIDI realiza a XIII Assembleia Regional em Iauaretê

 

Para preservar paisagens e territórios é preciso tratar da preservação das populações indígenas que habitam essas áreas, defende Marivelton Barroso, presidente da Foirn, em Brasília

Ministério do Meio Ambiente realiza o Seminário Conectividade de Paisagens: Experiências atuais e oportunidades para implementação de ações em conectividade de paisagens trazendo novas experiências e atores, como as organizações e lideranças indígenas. A Foirn representa experiências de Terras Indígenas do Rio Negro e Sítio Ramsar Rio Negro

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Presidente da FOIRN, Marilveton Rodriguês Barroso e Carlos Nery da Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (Caimbrn) participaram do evento realizado pelo Ministério do Meio Ambienta/MMA em Brasília

O que é Programa Conecta

Instituído pela Portaria nº 75, de 26 de março de 2018, o Programa Nacional de Conectividade de Paisagens tem o objetivo de promover a conectividade de ecossistemas e a gestão das paisagens no território brasileiro, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente.

A atuação do Programa é baseada nos seguintes eixos temáticos: conservação e recuperação ambiental; gestão territorial; e produção sustentável.

Isso por meio de políticas públicas integradas que proporcionam o desenvolvimento sustentável e estimulam a sinergia entre a conservação da natureza, a manutenção dos processos ecológicos e a prosperidade social econômica e cultural. E ainda contribuindo para a redução dos efeitos das mudanças climáticas sobre o ambiente e sua população.

Umas das metas é construir um programa de Estado que pense e ordene a conectividade territorial, tanto do ponto de vista da biodiversidade e da conservação, quanto do humano e do uso do solo. Por isso, apesar de ter sido criada dentro do âmbito do MMA, outros ministérios, como o da Agricultura, se juntaram às discussões.

Preservar as paisagens e território, é preservar seus povos

Parte da mesa de abertura, o diretor presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, defendeu que para preservar as paisagens e territórios, como é a proposta do programa, é fundamental garantir os direitos das populações que vivem nesses territórios, como indígenas, quilombolas e outros.

“É preciso pensar nas populações que vivem nesses territórios e buscar formas de gerir de forma compartilhada essas áreas protegidas, garantindo o desenvolvimento dessas populações”, disse.

A Foirn, representante dos povos indígenas do Rio Negro, leva para o seminário as iniciativas e experiências em curso como o Sítio Ramsar Rio Negro reconhecido como a maior sítio de área úmida do mundo em março deste ano, que chega para fortalecer e contribuir com a elaboração dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas do Rio Negro.

Outro assunto apresentado foi a necessidade de o governo brasileiro reconhecer o Corredor Biológico e Cultural AAA (Andes- Amazônia-Atlântico) coordenado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônia (COICA), da qual a Foirn é base, que também segue a linha de proteção de florestas, territórios e desenvolvimento sustentável das populações indígenas que vivem nessas áreas.

Leia também: Encontro reúne lideranças indígenas de nove países em Bogotá para tratar de ambicioso corredor ecológico e cultural

Ameaças às Terras Indígenas e áreas protegidas

 Além das invasões dos territórios indígenas por madeireiros, garimpeiros e outros, uma das grandes ameaças aos povos indígenas são as propostas de leis que querem tirar os direitos garantidos na Constituição Federal, muitos deles interferem diretamente no processo de demarcação de Terras Indígenas que ainda precisam ser reconhecidos e demarcadas. 

Lideranças Indígenas debatem importância e desafios da comunicação para a gestão das TIs no Rio Negro

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Realizado entre 18 a 21 de julho em São Gabriel da Cachoeira, a 35º Reunião do Conselho Diretor da Foirn reuniu lideranças indígenas de todas as calhas do Rio Negro, dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira e Barcelos. Os objetivos foram debater problemas e encaminhar propostas que contribuam para o bem-viver nas comunidades indígenas.

O Conselho Diretor é a segunda instância de deliberação depois da Assembleia Geral sobre as ações da Foirn e de temas de interesse dos povos indígenas do Rio Negro, acontece duas vezes por ano. Os conselheiros são indicados pelas comunidades para representar, propor e encaminhar propostas e demandas das comunidades que representa.

Como de praxe, os primeiros dois dias de reunião foram dedicados para a apresentação dos relatórios e pareceres da Comissão Fiscal, de atividades da diretoria executiva e dos departamentos de educação, mulheres e juventude da Foirn.

Cadeia de conhecimento é fundamental para nosso fortalecimento

Pautas como a Elaboração dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das Tis no Rio Negro, o Monitoramento de Mudanças Climáticas, a Cadeia de Produtos Indígenas, a Demarcação das Terras Indígenas e a Incidência Política foram debatidos pelas lideranças indígenas. Estas consideram esses trabalhos de pesquisas e levantamentos de dados fundamentais, pois trazem informações apuradas sobre a realidade dos povos indígenas do Rio Negro e propõem atividades de interesse das comunidades.

Para Protázio, professor e liderança Tukano de Pari Cachoeira, esses trabalhos de pesquisa e levantamento realizados pelos próprios indígenas nas comunidades são importantes, pois com essas informações as lideranças lutam e reivindicam melhorias para suas comunidades junto às instituições competentes. “Essas informações geram cadeias de conhecimento importantes para a nossa luta pelos direitos e pelo bem viver das nossas comunidades”, diz.

Protázio, Professor e Liderança Tukano de Pari Cachoeira

No mercado de projetos, com a elaboração desses planos de gestão dos territórios, as comunidades indígenas esperam ter maior facilidade de acessar programas do governo e editais buscando recursos financeiros através de suas organizações.

 Comunicação é fundamental para a gestão dos territórios 

As primeiras estações de radiofonia foram implantadas ainda nos meados da década de 1990 no Rio Negro pela Foirn em locais estratégicos para o monitoramento e proteção das recentes Terras Indígenas demarcadas. Em 31 anos de existência a Foirn conseguiu através de parceiros ampliar essa rede de comunicação a todo o Rio Negro. Hoje a rede é formada por cerca de 180 estações.

Na reunião do Conselho, as lideranças debateram sobre a necessidade de melhorar o uso desses equipamentos pelas comunidades e instituições parceiras que também utilizam o canal de comunicação para realizar suas ações na região. “Para muitos, a radiofonia é um meio de comunicação defasado, mas, para nós no Rio Negro é a que ainda funciona melhor”, afirmou Marivelton Rodrigues Barroso, presidente da Foirn.

Lideranças destacaram a importância da comunicação para a gestão dos territórios e a necessidade de estruturar melhor os meios para que as informações sobre os direitos indígenas cheguem até as comunidades mais distantes.

Além da rede de radiofonia, a Foirn em parceria o Instituto Socioambiental e apoio da União Europeia desenvolve desde novembro de 2017 a formação da Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro que envolve 17 jovens comunicadores de todas as regiões do Rio Negro. A Rede produz mensalmente o boletim áudio Wayuri, que é distribuído também nas comunidades e além de registrar e divulgar eventos do movimento indígena.

As lideranças concordaram em reformular os horários de uso da radiofonia pela central gerida pela Foirn como também destinar horários específicos para suas Coordenadorias Regionais e para o Distrito Sanitário Especial indígena no Rio Negro.

Foi aprovado o regimento de uso das radiofonias do Rio Negro, ver aqui

O Conselho encerrou sua reunião acordando a agenda para as assembleias regionais das cinco coordenadorias da FOIRN. Estes ocorrerão entre agosto e setembro deste ano e terão como pauta principal a revisão e validação dos PGTAs que deve puxar o debate sobre ações de fortalecimento das associações de base, desenvolvimento de produtos indígenas, comunicação e políticas públicas.

 

Maloca de Itacoatiara Mirim é reinaugurada no dia do Índio

População de São Gabriel da Cachoeira (AM) comemora a reabertura de importante centro de resistência cultural indígena na cidade

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Mestre Luiz Laureano toca japurutu ao lado do seu irmão na reabertura da Maloca de Itacoatiara Mirim|Ovinho Tuyuka / Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro

Com muito caxiri, quinhampira, mujeca e música tradicional do Alto Rio Negro, o Mestre Luiz Laureano Baniwa, de 71 anos, reinaugurou sua Maloca em uma grande festa, no bairro de Itacoatiara Mirim, na periferia de São Gabriel da Cachoeira (AM)

A Maloca de Itacoatiara reabriu neste 19 de abril, dia do Índio, após quase um ano fechada para reforma. Apoiada pelo Instituto Socioambiental (ISA), a Maloca promoveu uma campanha de financiamento coletivo na internet para captar doações para sua reconstrução. O valor de R$ 20 mil coletado foi suficiente para arcar com as despesas necessárias à obra, que contou com amplo trabalho da comunidade e, sobretudo, do seu principal construtor, Mestre Luiz.

Durante todo o dia 19, Mestre Luiz e a comunidade multiétnica de Itacoatiara Mirim promoveram um festival cultural indígena para receber a população de São Gabriel e visitantes de fora. “Estou muito feliz porque conseguimos reconstruir nossa Maloca Casa de Conhecimento. Agora podemos receber todo mundo de novo para mostrar nossa cultura”, celebra Mestre Luiz.

Para recuperar sua tradição, Luiz Laureano ergueu a Maloca de Itacoatiara em 2005 e, desde então, mora com a sua esposa no local, onde também recebe visitantes, promove eventos culturais, festas comunitárias, faz benzimentos e outros rituais de cura. Evangélico, Mestre Luiz não deixa sua cultura de lado e concilia a religião cristã com os rituais indígenas. “Importante é manter a cultura do índio, porque sou índio Baniwa mesmo. Essa é a minha palavra”, enfatiza o carismático Mestre Luiz.

Com 90% da população indígena, São Gabriel da Cachoeira concentra 23 etnias e possui quatro línguas indígenas cooficiais (Baniwa, Nhengatu, Tukano e mais recentemente, o Yanomami). Por toda essa riqueza e diversidade cultural, São Gabriel recebe o título de cidade mais indígena do Brasil. Na área urbana do município existem apenas duas Malocas, a de Itacoatiara Mirim e a da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), importante local de reunião do movimento indígena, também reconstruída recentemente pelo Mestre Luiz.

Por Juliana Radler

Publicado originalmente no: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-rio-negro/maloca-de-itacoatiara-mirim-e-reinaugurada-no-dia-do-indio

 

 

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