Foirn e parceiros mobilizam municípios do Rio Negro para avaliar a educação escolar indígena no âmbito do TEERN, em Santa Isabel do Rio Negro

Capa_TEERN

O I Encontro de Educação Escolar Indígena no Rio Negro, será realizado nos dias 25 a 27 de outubro, em Santa Isabel do Rio Negro.

O evento irá reunir mais de 200 participantes, vindos dos três municípios que compõem o TEERN (Território Etnoeducacional Rio Negro), entre estes, lideranças indígenas, professores, estudantes, gestores municipais, vereadores e representantes dos orgãos responsáveis pela educação escolar indígena (SEMECs, SEDUC e MEC).

O Território Etnoeducacional do rio Negro foi o primeiro a ser criado em 2009,  reúne instituições de ensino, órgãos governamentais e não governamentais para discutir, elaborar e pactuar um plano de ação voltado para garantir que ações de educação escolar indígena sejam realizadas no território.

A última revisão feita foi em 2014 num evento realizado na maloca da Foirn em São Gabriel da Cachoeira, onde várias instituições assumiram o compromisso de desenvolver ações de acordo com suas competências.

O encontro em Santa Isabel do Rio Negro terá como foco avaliar a pactuação realizada em 2014 e firmar um plano de ações para próximos anos.

A foirn nos últimos meses vem  articulando e mobilizando parceiros  para o encontro  no âmbito doTerritório Etnoeducacional seja realizada, e garantir que lideranças indígenas participem e propõem melhorias para as ações da educação escolar indígena no Rio Negro.

________________________________

Programação: 

Dia – 25/10/2017 (Quarta Feira)
Manhã
8:00 – Credenciamento;
8:30 – Mesa de abertura;
– Breve histórico da Educação Escolar Indígena no rio Negro e os TEEs/ Ivo Fontoura antropólogo Indígena- Tariano;
9:00 – Políticas de atendimento da Educação Escolar Indígena na região do rio Negro, no
âmbito do TEERN;
SEMEC/SEMED: São Gabriel, Barcelos e Santa Isabel;
DEBATEDORES: André Baniwa, Armando Menezes e Higino Tenório
– Debate
10:00 – Intervalo
10:15 – Políticas de atendimento da educação escolar na região do rio Negro e TEERN;
Coordenadorias SEDUC Santa Isabel, São Gabriel e Barcelos, GEEI/AM;
DEBATEDORES: Juvêncio Cardoso CABC, Carlos Nery e Geraldo Veloso;
– Debate
12:00 – Almoço
Tarde
14:00 – IES: UEA, UFAM, IFAM e outras instituições;
Debatedores: Ivo FONTURA-Antropólogo indígena e Sidneia Fontes Prof.ª Indígena
-Debate
15:30 – Intervalo;
15:45 – – Políticas de atendimento da Educação Escolar Indígena na região do rio Negro, legislação e controle social no TEERN;
– FOIRN, Lideranças Indígena (Edilson Melgueiro e Domingos Camico)
– Debate;
18:00 – Encerramento das atividades do dia
Dia – 26/10/2017 (Quinta feira)
Manhã
8:00 – Políticas de atendimento da educação escolar indígena na região do rio Negro, legislação e controle social no TEERN;
– FUNAI e ISA;
– Debate
10:00 – Intervalo
10:15 – Como fortalecer as conquistas do Movimento Indigna no rio Negro, no âmbito da Educação Escolar Indigena e TEERN;
– Marivelton – Diretor FOIRN, Elias Brasilino – Diretor IFAM/Campus SGC
– Debate

12:00 – Almoço
Tarde
14:00 – Politicas da Reforma do Ensino Médio e Educação Escolar Indígena;
– Ministério da Educação e Cultura MEC e SEDUC/AM
– Debatedores: Tarcisio IFAM e gestores de Escola
– Debate;
15:30 – Intervalo
15:45 – Redefinição das ações dos entes federados do TEERN;
– Trabalhos em GRUPOS
18:00 – Encerramento das atividades do dia
Dia – 27/10/2017 (Sexta feira)
8:00 – Redefinição das ações dos entes federados do TEERN;
– Trabalhos em GRUPOS
Leitura do documento final do TEERN e pactuação das ações dos entes federados do TEERN;
– Aprovação
10:00 – Intervalo
10:15 – Leitura do documento final do TEERN e pactuação das ações dos entes federados do TEERN;
– Aprovação
12:00 – Almoço
Tarde
14:00 – Encaminhamentos finais
15:40 – Informes
16:00 – Mesa de encerramento
– Os materiais de apoio são os documentos encaminhados e pactuados durantes os encontros, conferencia, assembleias:
– Plano de Ação do TEERN 2008 e 2014.
– Conferencia Nacional de Politicas Indigenistas CNPI;
– Conferência Nacional de Educação Escolar Indignas I e II CONEEI e;
– Encaminhamentos da Assembleia Geral da FOIRN

 

Experiências e Desafios na Gestão Pública por Domingos Sávio Camico

O blog da FOIRN conversou com o Domingos Sávio Camico, liderança da etnia Baniwa, atual vice-prefeito e secretário de educação do município de São Gabriel da Cachoeira, durante o Seminário Rio Negro de Educação Indígena.

Imagem

“ Ter a experiência de gestor público é positiva e desafiadora, considerando que teve toda a sua formação no movimento indígena, novos aprendizados e muitas batalhas a serem vencidas no exercício de secretário municipal.

A proposta na atuação da SEMEC é a consolidação da política de educação escolar indígena no município, desde a formação dos professores indígenas, incluindo as ações de apoio produção de material didático, elaboração de projetos políticos pedagógicos e merenda regionalizada. Mas existe muitas dificuldades e enfrentamentos na gestão municipal, a formação do corpo técnico da SEMEC para garantir a atuação em campo é a primeira urgência a ser garantida. Além de toda dificuldade com as burocracias da gestão pública.

Quanto a política do Território Etnoeducacional a participação do governo municipal é assegurar o cumprimento das responsabilidades pactuadas no termo de acordo entre as instituições. A expectativa é ter um apoio maior de financiamento do Ministério de Educação, que considere um financiamento que garanta a logística do município (mais de 200 mil km2).

A expectativa ter o apoio do MEC para o município de São Gabriel da Cachoeira ter um Plano de Ações Articuladas – PAR diferenciado e específico, considerando a diversidade dos 31 povos indígenas na região do alto rio Negro e pretendemos retomar o projeto de formação do quadro de Assessores Pedagógicos Indígenas – APIs.”

 

Por Renato Martelli/ISA, Ray Benjamim/FOIRN e Laise Diniz/ISA

Seminário Rio Negro de Educação Indígena: Terceiro Dia.

No último dia de seminário, mais uma vez com a maloca da FOIRN cheia, os trabalhos se iniciaram com uma roda de conversa formada por lideranças indígenas, professores e coordenadores. Foi a primeira roda do evento formada inteiramente por indígenas. Karim Juruna, da etnia Yudjá e liderança da ATIX (Associação da Terra Indígena do Xingu), expôs alguns dos trabalhos que valorizam a cultura, reflorestam o território e unem as comunidades para enfrentar pressões como plantações de soja, criação de gados e grandes obras como a hidrelétrica de Belo Monte. Apesar do Parque do Xingu ter 28 municípios ao seu redor, somente sete deles atendem escolas indígenas. Para os participantes foi uma oportunidade de conhecer um contexto bastante diferente ao do Rio Negro, principalmente no tocante à pressão pelo território, mas que tem suas similaridades como as atividades que fortalecem o poder e autonomia indígena.

Em seguida gestores das escolas de Taracuá, no rio Uaupés e de Pari-Cachoeira no rio Tiquié expuseram como o sistema convencional de educação está enraizado em idéias do dia a dia e como vários pais são resistentes à educação indígena. O sistema convencional não atende às realidades indígenas, afirmou Armando da Silva Menezes de Taracuá. Isso acaba formando alunos com falta de senso critico e sem o poder de pensar e somente reproduzindo conhecimento. Outra crítica foi o foco demasiado na teoria, neste sistema falta prática afirmaram os coordenadores. Mais uma vez, a falta de implementação de leis e direitos dos povos indígenas foi mencionado.

Em Pari-Cachoeira, afirma o professor Protásio Machado, falta energia elétrica mesmo com a existência de uma pequena central hidrelétrica. O professor lembrou ainda que a colonização de indígena para indígena é um tema que deve ser lembrado para que possa ser impedido e que o caminho deve ser de valorizar as próprias identidades de cada grupo diferente.

Justino Sarmento, tuyuka padre salesiano e professor no rio Marauiá, reforçou a questão de identidade indígena e leu um texto, definido por ele como poético e político, sobre os direitos originários dos povos indígenas (confira o texto na íntegra abaixo).

Custódio Benjamim Baniwa e Clarice Cohn falam do Observatório de Educação Escolar Indígena.
Custódio Benjamim Baniwa e Clarice Cohn falam do Observatório de Educação Escolar Indígena.

Ainda pela manhã o Observatório da Educação Escolar Indígena da Universidade Federal de São Carlos foi tema da segunda roda de conversa do dia conduzida pela antropóloga Clarice Cohn e Custodio Benjamim, baniwa formado em pedagogia pela UFSCar. Este observatório busca pesquisar, através de etnografias de escolas indígenas, conceitos e ações que são naturalizadas no dia a dia mas que contêm significados específicos de acordo com cada contexto. São questões como o respeito aos conhecimentos indígenas, a comparação entre escolas diferenciadas e não diferenciadas, a infância indígena e as práticas pedagógicas. Conceitos que fazem parte do dia a dia de escolas mas que são problematizados e analisados através das pesquisas do Observatório. Entre os desafios metodológicos para isto foram citados a bagagem da formação de cada pesquisador, a dificuldade de fazer etnografias de si mesmo no caso de professores e a formação e posição do pesquisador dentro da escola, este “adulto diferente’ entre jovens e crianças. Em seguida, Custódio disse que um dos grandes problemas da educação indígena está na esfera da micropolítica, onde as pessoas se acomodam e buscam somente obedecer ao sistema. Afirmou que o movimento indígena deve ser pensado como a matriz para as discussões e reflexões sobre educação indígena. Lembrou ainda que conceitos como ensino técnico podem ter diferentes significados. Se para a maioria das comunidade isto significa a habilidade de desenvolver trabalhos para a comunidade, que busquem sua sustentabilidade, para vários programas do Estado, ensino técnico é para formar mão de obra pra o mercado de trabalho.

A sessão da tarde foi toda dedicada para a elaboração conjunta do Documento de Encaminhamentos e Propostas do Seminário. Este documento será disponibilizado neste blog mas adiantamos que ele considera questões como reconhecimento de projetos políticos pedagógicos indígenas, promoção da temática de gestão territorial, retomada do Plano de Ações Articuladas do Ministério da Educação e audiência pública convocando, não convidando, os poderes executivos dos três municípios do Território Etnoeducacional do Rio Negro (São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos), certificação de professores e o encaminhamento dos depoimentos do seminário para o Ministério Público Federal. Todas estes foram detalhados e explicam quem serão os responsáveis, os participantes e qual seu período de educação. Junto com este documento, as autoridades receberam as propostas dos seminários locais realizados desde ano passado pela FOIRN, FUNAI e ISA.

O Seminário termina oficialmente hoje, mas nos próximos dois dias o Território Etnoeducacional do Rio Negro será objetivo de discussão na Maloca. Esperamos que as notícias tenham despertado interesse para o tema da educação escolar indígena para que este transborde para além da escola, que seja parte dos direitos efetivos dos povos indígenas, parte da vida da comunidade e que apóie o bem viver das comunidades.

 

Equipe de comunicação do Seminário: Renato Martelli/ISA e Ray Benjamim/FOIRN

Direitos Indígenas e Desafios de Gestão Pública no Brasil e na América Latina

Pe. Justino Sarmento Rezende, Casa dos Saberes/FOIRN – SGC, 04/06/2014

Pe. Justino Sarmento Rezende, na maloca Casa dos Saberes da FOIRN, durante Seminário Rio Negro de Educação Indígena. Foto: Renato Martelli/ISA
Pe. Justino Sarmento Rezende, na maloca Casa dos Saberes da FOIRN, durante Seminário Rio Negro de Educação Indígena. Foto: Renato Martelli/ISA

Estou sentado num banco que significa o útero materno, banco da vida, banco que os meus avós sentaram diariamente e nos rituais conversando sobre a vida: passado, presente e o futuro.

Uma Casa Grande, Sagrada, cheia de vida e simbolismo me cerca, me envolve nesse momento. Sinto-me pequeno dentro da grandeza dessa Casa e diante do difícil tema para falar: Direitos Indígenas e Desafios de Gestão Pública no Brasil e na América Latina.

Não sou um Advogado para falar dos Direitos Indígenas, não sou Gestor Público para falar da Gestão Pública e não sou um conhecedor da América Latina.

Da América Latina eu sei apenas dizer que nela habitam muitos povos indígenas como nós, homens bonitos e mulheres lindas, cada povo com suas riquezas.

Diante desse tema: o que eu faço? Dá vontade de ficar calado, ficar com raiva, ficar revoltado. Mas olhando para vocês fico muito feliz, pois eu vejo centenas de olhares voltados para nós, querendo ouvir algo bom, com certeza.

Meus parentes eu pergunto para vocês: o que os vossos corações gostariam de ouvir de mim? O que é que vou falar para vocês sobre os nossos Direitos Indígenas?

Permitam-me criar asas para voar no tempo, num tempo muito longe, no mundo imaginário que eu não conheci, no mundo dos indígenas imaginários de nossos antepassados.

Os nossos direitos indígenas surgiram lá, quando vivíamos somente nós indígenas em nossas terras! Ah! Como era bom, como era diferente dos dias de hoje!

Nós vivíamos as nossas riquezas. Vivíamos as nossas simplicidades, alegrias, nossa nudez significava nossa originalidade, nossa beldade, dignidade, indianidade.

A nossa nudez não era sinônimo da pobreza, era nosso estilo de vida naquelas épocas histórias, era exibição do corpo humano-divino.

Lá era o tempo em que contávamos histórias que eram somente nossas histórias, ouvíamos atentos sentados e deitados nos nossos bancos, redes de fios de buritizeiro…

Ouvíamos histórias que despertavam vontade de conhecer as personagens. Achávamos graça à vontade! Também ouvíamos histórias assustadoras e ficávamos arrepiados.

Vivíamos dia a após dia na tranquilidade, diariamente saíamos em busca de nossa alimentação espalhada nas grandes florestas, nos rios, igarapés. Buscávamos alimentação nas nossas pequenas e grandes roças.

Em cada estação nas nossas ricas e lindas florestas encontrávamos frutas gostosas.

Nos caminhos das coletas nossos cachorros caçadores marupiaras encontravam cutias, pacas, queixadas, caititus, quatis, macacos, com as zarabatanas e outras armadilhas pegávamos mutuns, inambus, jacus…

Pescávamos e matávamos os peixes com arco-flecha, fruta-veneno-de-peixe, matapi.

Fazíamos festas rituais masculinos, femininos, festas longas, cheias de benzimentos de apaziguamentos das doenças, benzimentos de curas, prevenção das doenças… Fumávamos cigarros benzidos, mascávamos ipadu benzido para proteger nossas vidas contra os ataques dos males.

Andávamos pintados com urucum, jenipapo, carajuru. Andávamos com os nossos corpos com odores das puçangas, para pegar peixe, caça e também pessoa desejada.

Traçávamos com nossas mãos artistas linhas avermelhadas de urucum em nossos belos rostos, ficávamos orgulhosos com pinturas e seus simbolismos.

Nossas pinturas faciais e corporais, colocavam em contatos com as forças divinas, contatos com as forças da natureza: gente-florestas, gente-peixes…

Casávamos com gente certa, prometidas desde ventre materno. Visitávamos nossos parentes, irmãos, cunhados, tios…

Levávamos nossas riquezas para outros povos, fazíamos nossas festas de ofertas- dabucuri, recebíamos em troca outros produtos.

Bebíamos bebidas fermentadas e alucinógenas que nos levavam para os mundos das sabedorias, entrávamos em transe, conversávamos com os espíritos da vida-deuses.

Bebidas alucinógenas, caxiris, cigarros benzidos, conduziam-nos até às nossas Casas de Origem, Casas dos Trovões, Casas de Pedras Quartzo.

Depois de grandes rituais tínhamos um tempo de descanso, para dormir à vontade, recuperar nossas energias, forças. Refeitos seguíamos novamente ao movimento da nossa vida.

Assim éramos conscientes de sermos donos de saberes, conhecimentos que recebemos por iluminação durante nossas meditações noturnas cotidianas.

Somos amigos, irmãos, primos, cunhados, netos da natureza, das águas, dos trovões, das cobras grandes, dos seres vivos originadores das vidas indígenas.

Meus parentes assim é que nós vivíamos nossos direitos de povos indígenas específicos e diferenciados.

Somos povos de inteligência, sabedoria, povos de famílias, da aldeia e comunidades, pessoas que amam e educam; famílias organizadas que constroem vidas, facilitam boas convivências, ensinam o respeito aos irmãos-parentes-cunhados; respeitar irmãos maiores-chefes, menores; respeitar tuxauas, caciques, mestres de danças, de rituais, pajés.

Nossos líderes tomam conta da vida, animam os trabalhos, festas rituais, danças, convidar para comer quinhapira juntos, tomar caxiri juntos.

Assim vivíamos nossos direitos de povos indígenas específicos e diferenciados.

Mas tudo começou a mudar há muito tempo atrás. Agora estamos aqui sentindo- nos como povos fora de nossos lugares de origem.

As histórias de contatos com o mundo do branco tornaram-nos povos do medo, dentro de nossas próprias terras, com medo em nossas próprias Casas de origem, Casas de origens das vidas. Casas da Alegria, da Sabedoria, do Equilíbrio.

Ó “estranhos homens brancos”, vocês tornaram nossas aldeias em centro de medo, de fuga, de insegurança.

Meus parentes! Quem roubou a nossa tranquilidade de viver a vida indígena? De viver os nossos direitos indígenas?

Não foi um temporal, relâmpagos, trovoadas, não foram os bichos do mato, espíritos maus, curupiras, não foram as imensas florestas, gentes-florestas, não foram os Peixes, gente-peixes, botos, cobras grandes, não foram as larguras e profundezas dos rios amazônicos, não foram as águas negras, azuis, verdes, vermelhas. As perigosas cachoeiras não tiraram nossas tranquilidades.

Quem tirou a nossa alegria de viver, de viver em paz, foi o próprio ser humano, vindo de longe, um estranho, um aventureiro que chegou aqui sem nos conhecer, não conhecia nossas terras, nossas culturas, nossas línguas.

Um ser humano tão estranho, barbudo, peludo chegou aqui com ares de dono de tudo e de todos, andava com o corpo coberto com panos para esconder seu corpo estranho, era homem branco enorme, cara-séria-assustadora.

Donde apareceu esse ser antes inexistente e nunca visto? Caiu do alto, saiu das

florestas, veio com as nuvens? Quem lhe convidou para chegar aqui? É nosso parente? Tem algum parente aqui? Ele carregava nas costas, espingarda, na cintura outra arma pequena, nos seus braços exibia terçado para nos assustar.

Ó homem branco, de onde você veio? O que veio fazer entre nós?

Sim, homem branco, você nos assustou, invadiu nossas casas, abusou de nossas parentas, obrigou os homens a trabalhar sem parar, matou muitos parentes nossos, nossas famílias e nossas aldeias ficaram medrosas. Agora nós sabemos quem é você, você modificou nossas histórias, nossas culturas, nossas vidas, nós aprendemos suas sabedorias e suas malícias.

Não queremos que as suas maldades nos dominem e estraguem nossas vidas, não queremos que as nossas riquezas desapareçam. Queremos que a sabedoria do homem branco nos ajude a vencer, vencer na vida, nas histórias, conquistar outros bens, reservados para nós.

Ó homem branco, oxalá seja nosso aliado! Para perdermos o medo, o susto. Reconquistemos a confiança e a alegria de viver .

Meus parentes agora nós estamos aqui dependendo dos outros, pedindo que eles façam escolas para nós, tragam merenda para nossos alunos, que pague ao trabalhador-indígena baniwa, tuyuka, tukano, tariano, baré, wanano, werekena, yanomami, dessano, piratapuia, kubeu e demais povos.

Hoje o desejo de entrar na cultura escolar seja ela indígena ou outros modelos, é muito forte! Temos vontade louca de estudar. Estudam as crianças, adolescentes, jovens, casados, professores aposentados ainda estão estudando.

Sabemos que os estudos não nos dão condições de SABER CUIDAR DA NOSSA VIDA indígena. Na atualidade esses estudos estão conseguindo estragar nossas vidas, pois geram sofrimentos, angústias, raivas, desgastes de nossas forças humanas, criam brigas entre nós.

Hoje quem começou estudar quer estudar mais e mais. Estou há cinco anos em meio ao povo Yanomami do rio Marauiá, município de Santa Isabel, todas as reuniões eles reivindicam escola boa, querem ter aulas, querem professores, mas os governantes não chegam lá, governantes municipais não querem nem saber dos Yanomami. O que fazer?

No contexto atual eu ainda nunca escutei dizer: padre, nós decidimos não ter mais escolas. Estudando, estudando até aonde vamos parar? Até aonde esses estudos vão nos levar? Vale a pena estudar tanto na vida?

Vivemos momentos de encontros e desencontros em nossas vidas e em nossa região do Rio Negro: temos alunos, escolas, professores, mas falta o salário; outras vezes temos escolas, mas não temos alunos.

Eu me pergunto: nós não sabemos construir escolas com os recursos que as nossas florestas nos oferecem? Poderíamos, sim, mas hoje nós não queremos escolas feitas com palhas, queremos de zinco, alvenaria…

Nossos sonhos foram alcançados nas nossas histórias do Rio Negro, outros ainda alcançarão. Temos terras demarcadas, mas muitas famílias preferem abandoná-las, vão viver nas cidades; temos terras, mas não temos farinha.

Temos dificuldades em gerenciar os benefícios implantados e conquistados: novos modelos de educação escola, com suas próprias metodologias; projetos criação de peixes, laboratórios, manejo florestal, etc.

Penso: se todos esses projetos estivessem funcionando não estaríamos dependendo damerendaescolar ,teríamosnossos peixes, poderíamos comer a caldeirada de peixe, poderíamos fazer mujeca e comer com nosso beiju, nossa farinha; teríamos mel de abelhas para adoçar sucos de frutas que existem em nossos povoados; as nossas crianças poderiam merendar bananas, cucura, ingá, etc.

Na falta dos resultados de nossos trabalhos estamos sempre esperando um pouquinho de merenda que vem e ficamos brigando em nossas comunidades, dizendo que o professor comeu tudo, que alguém roubou.

Essas situações que nós sofremos aqui na região existem em todo o Brasil e em América Latina. Existem situações piores do que as nossas situações, povos indígenas sem terras, pedindo esmolas nas beiradas das estradas.

Amigos e amigas representantes da política pública, gestores públicos temos que estar mais comprometidos com as vidas. Os gestores públicos somos nós mesmos, pois muitos de nós somos professores municipais, estaduais e universitários.

Os gestores da administração pública têm um papel importante, pois eles se comprometeram com isso publicamente, nas campanhas eleitorais.

As histórias estão mostrando que as coisas estão mudando, está assumindo perfil indígena. Algumas décadas atrás nessas mesas sentavam somente homens e mulheres não-indígenas. Hoje já temos muitos indígenas e futuramente serão mais indígenas. Há mudanças de atores históricos.

Isso também tem suas consequências: antes nós brigávamos com os não-índios e agora brigamos com os nossos próprios parentes.

Meus parentes, hoje, eles e nós mesmos sabemos que é difícil resolver os problemas sem a interferência direta do papelzinho chamado dinheiro. Esse pedacinho de papel que o homem inventou está nos deixando doidos, dominando e paralisando nossas vidas e nossas atividades.

Nós indígenas não fabricamos dinheiro até o momento. Quem sabe um dia! Mas meus parentes nós estamos vivendo dentro e em cima das riquezas naturais, minerais, biodiversidade. Mas temos medo de usar. Até quando vamos ficar esperando que os governantes façam o que nós queremos? Será que eles vão conseguir nos atender em tudo? Não vão conseguir tudo, mas podem fazer melhor o que estão fazendo.

Meus parentes o que acabo de dizer é algo muito poético, mas também é muito político, pois estou dizendo algo que tem muito a ver com as nossas histórias, nossas vidas e nossos trabalhos. Muitas mudanças dependem de nós mesmos, vocês sabem disso, se você não faz as coisas acontecer lá na sua comunidade as coisas não acontecem, já foi dito aqui, você mesmo gastando o seu dinheirinho para comprar diesel, gasolina, usando seu motor-rabeta, visitando as escolas. Esses gestos são demonstrações de compromissos com o povo, com os alunos, com os ideais que carregamos no nosso coração. Os governantes não vão repor todos os recursos que você utilizou para ajudar seus parentes, algumas vezes nem os alunos nem os pais vão reconhecer seus trabalhos.

Todos nós que estamos aqui não podemos desanimar, pois ser indígena é muito bom, pois somos pessoais especiais e únicas no mundo. Com a gente o mundo fica mais bonito. Temos que fazer bem o que temos que fazer. Ultimamente é isso procuro viver, ser bom indígena, ser bom padre.

Somos herdeiros de pessoas fortes, corajosas e vencedoras que nunca dependeram dos homens e mulheres brancas para viverem.

Também somos herdeiros de pessoas que lutaram pelos nossos povos no movimento indígena, muitos deles estão vivos e outros nos deixaram. Outros foram para os poderes públicos. E, dentro desse grupão devem estar os futuros vereadores, vereadoras, prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, federais e senadores. Nada é impossível, chegará o momento para isso. Quem chegar lá, saiba que você saiu daqui, lembra do que você reivindicava aqui e faça algo bom para nós.

Muito obrigado!

Seminário Rio Negro de Educação Indígena: Primeiro Dia

Imagem
Casa dos Saberes é o espaço de discussão e debates sobre a Educação Escolar Indígena do Rio Negro. Mais de 300 participantes foram registrados no primeiro dia do evento.

Iniciou hoje, 2/6/14, na Maloca Casa dos Saberes da FOIRN em São Gabriel da Cachoeira o seminário Rio Negro de Educação Indígena. O evento reúne participantes dos seminários autônomos de educação realizados desde o ano passado nas cinco sub-regionais da FOIRN. Estes seminários vêm discutindo e sistematizando os contextos, demandas locais e dados sobre a educação indígena do Rio Negro. Fruto de uma iniciativa conjunta entre FOIRN, FUNAI, ISA e as comunidades, estes seminários levantaram importantes informações sobre a realidade da educação indígena e sua etapa regional reuniu hoje mais de 300 participantes.

A abertura contou com a palestra de André Fernando, liderança Baniwa, onde a distância entre a lei vigente e a prática do dia a dia foi evidenciada. Este ponto foi marcado por vários relatos ao longo do dia e resume um dos grandes problemas apontados, a falta de implementação de direitos garantidos por constituição, lei de diretrizes e bases e resoluções como a 03/1996. Se não faltam leis, falta ação.

Para concluir a abertura, os alunos do ensino fundamental e médio da escola Tuyuka apresentaram danças de cariçu e japurutu.

Imagem
Estudantes de ensino fundamental e médio da Escola Tuyuka – do Rio Tiquié apresentaram danças tradicionais: Carricú e japurutu aos participantes

Pela manhã representantes das cinco coordenadorias regionais da FOIRN apresentaram um resumo dos principais pontos discutidos durante os seminários regionais. Alguns pontos destacados foram a estrutura precária, a falta de formação continuada dos professores, processo seletivo com padrões exteriores à região, falta de material didático produzido pelas próprias comunidades e em línguas indígenas, falta de reconhecimento dos Projetos Políticos Pedagógicos Indígenas pelo poder governamental e problemas com a qualidade e distribuição da merenda escolar.

Pela tarde uma roda de conversa entre representantes da FOIRN, FUNAI, IFAM, ISA, MEC, SEMEC/SGC, SEDUC e SEIND discutiu sobre os desafios da educação escolar indígena, levando em consideração os pontos levantadas pelas apresentações de manhã. Os participantes tiveram espaço para tirar questões e reivindicar suas demandas e propostas para estes representantes. Esta roda propôs alternativas para questões como construção de escolas através de mutirões comunitários, produção e venda de merenda regionalizada, PPP próprios, formação continuada e protagonismo dos povos indígenas.

Imagem
Primeira roda de conversa do dia reuniu representantes de orgãos governamentais, que dialogou com o público durante a conversa que teve como tema: Desafios da Educação Escolar Indígena, mediado pelo Justino Tuyuka.

Como foi afirmado por um dos participantes, “O Estado sempre está um passo atrás do movimento indígena”. Neste evento a ideia é juntar o caminhar de quem é responsável no dia a dia das escolas ao andar das políticas governamentais. Os gestores públicos que pratiquem seu saber ouvir para depois saber o que fazer.

O Seminário vai até quarta feira e no final de cada dia um resumo será publicado aqui no blog da FOIRN. Acompanhem também o andamento das atividades no nosso twitter @foirn e página (notícias e imagens)  no Facebook.

 

Equipe de comunicação do Seminário: Ray Benjamim/FOIRN e Renato Martelli/ISA.

Seminário local de Educação Escolar Indígena é realizado no município de Barcelos (AM)

Representantes da comunidade São Francisco, do Rio Jurubaxi apresentam a situação atual da escola e as demandas durante o Seminário de Educação Escolar Indígena realizada em Barcelos.
Representantes da comunidade São Francisco, do Rio Jurubaxi apresentam a situação atual da escola e as demandas durante o Seminário de Educação Escolar Indígena realizada em Barcelos.

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a Fundação Nacional do Índio (Funai), em parceria com o ISA, realizaram, entre 14 e 16/5, um seminário de Educação Escolar Indígena, em Barcelos, no noroeste do Amazonas.

O evento reuniu 50 representantes de 12 comunidades indígenas do município, incluindo professores, pais, alunos e lideranças Baré, Baniwa, Tukano, Caxinawá, Tuyuka, Macuxi, Ticuna e Arapasso, além de integrantes da Coordenadoria das Associações Indígenas do baixo Rio Negro (CAIMBRN), Associação Indígena de Barcelos (Asiba) e Setor de Educação Escolar Indígena da Secretaria Municipal de Educação de Barcelos.

O seminário é o sétimo do projeto “Seminários de Educação Escolar Indígena”, lançado em janeiro, na Casa do Saber da Foirn, no âmbito da política do Território Etnoeducacional e dentro da perspectiva da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). A iniciativa tem como objetivo realizar um diagnóstico sobre a educação escolar indígena nas cinco regiões administrativas do Rio Negro, além de promover o intercâmbio de experiências, propor melhorias e inovações de infraestrutura, metodologias de ensino, formação de professores indígenas, elaboração de projetos políticos pedagógicos indígenas e, de forma mais ampla, aprofundar a discussão político-filosófica da educação escolar indígena e suas especificidades na região.

Durante os três dias do encontro em Barcelos, professores e lideranças indígenas apresentaram suas experiências com a escola e suas expectativas em relação à educação escolar indígena. Grupos de trabalhos discutiram a situação atual das escolas e suas principais demandas. Todas as atividades realizadas por eles serão sistematizadas, compondo um documento que será entregue ao Ministério da Educação, Secretaria Estadual de Educação e Secretaria Municipal de Educação. O objetivo é fechar um pacto interinstitucional e intercomunitário para garantir as escolas indígenas nas comunidades, respeitando os processos próprios de ensino e aprendizagem de cada uma.

Descaso

Um dos principais temas debatidos foi o descaso do município em relação à educação escolar indígena. Segundo os participantes, o discurso da prefeitura é o de que apenas os Yanomami podem ser considerados indígenas – ainda que nem os próprios Yanomami tenham escolas reconhecidas pelo município – ao passo que as outras etnias vêm sendo desconsideradas. Os indígenas também reclamaram que a secretaria municipal de educação costuma informar às comunidades que apenas as terras demarcadas teriam direitos relacionados às escolas indígenas.

No seminário, esclareceu-se que todos os povos indígenas, independente de ter suas terras demarcadas ou não, têm o direito garantido por lei a uma educação escolar indígena específica e diferenciada, ou seja, com uma escola voltada para cada povo indígena e pensada por cada povo, entendendo que cada grupo étnico possui cultura própria. Participantes lembraram que a secretaria municipal de educação não pode definir quem é ou não indígena para reconhecer uma escola indígena, cabendo apenas aos grupos e comunidades o direito à autoidentificação.

Os participantes avaliaram que o encontro foi muito importante porque eles desejam valorizar as culturas e as línguas de cada grupo étnico em suas comunidades. Há grupos Tukano, Baniwa, Baré, Dessano e Arapasso, por exemplo, convivendo em uma mesma comunidade. De acordo com os indígenas, é importante que eles aprendam a chamada “língua geral” em sala de aula e dentro da família, mas de forma que ela não tome o espaço de outras línguas faladas em suas comunidades, como o tukano e o baniwa. Eles observaram essas línguas devem ser trabalhadas em sala de aula, mas também de acordo com cada grupo étnico e, sobretudo, dentro de casa.

Depoimentos

“É de muita importância discutir a educação escolar indígena, que é um desafio para todos nós. Nós estamos revitalizando a educação indígena, que é diferente da educação escolar indígena, que é diferente da educação diferenciada. Nós sabemos que cada um de nós tivemos educação indígena, nossa cultura, nosso modo de vida, também na língua. Estamos esquecendo a cultura de nossos ancestrais, nossos pais, mas hoje sabemos que a gente pode, paralelamente, trabalhar a pedagogia intercultural nas escolas urbanas também. É um desafio para cada professor entender a complexidade de cada aluno, no âmbito social, cultural, histórico, étnico e econômico. Temos que entender que estamos lidando com seres humanos de várias classes sociais e etnias. Já participei de conferências que trataram da educação escolar indígena. Os debates, ideias são importantes porque, aos poucos, podemos formatar um núcleo de educação escolar indígena em nossa secretaria, que possa funcionar.

Renato dos Santos Batista Baré, professor indígena.

“Barcelos passa por momentos importantes, relacionados à demarcação de terras indígenas. Temos conflitos, grandes, mas aqui, hoje, o centro é educação. Ninguém promove mudança na sociedade sem passar pela educação. O que vamos fazer aqui é discutir a educação escolar indígena. Muito se fala, mas pouca experiência nós temos. Nós travamos essa discussão e aos poucos se vai avançando e hoje percebemos, que nossas escolas da zona rural, nossos professores começam a compreender o que é uma educação diferenciada. Nós queremos, para Barcelos, uma escola que atenda as especificidades, uma escola que promova a cidadania. Vamos aproveitar, é o momento de começarmos a construir efetivamente uma proposta de educação escolar indígena em Barcelos, Santa Isabel e reforçar a educação escolar indígena em São Gabriel.”

No encontro, os participantes relembraram a história das escolas na região. De acordo com eles, as primeiras foram implantadas há 100 anos, por meio do internato salesiano. Antes disso, as crianças aprendiam com seus pais, avós e tios aquilo que lhes era essencial para viver bem em seu grupo local, no momento certo. O aprendizado acontecia na prática e no cotidiano. Primeiro observando e, depois, fazendo.

Ainda segundo os indígenas, o modelo convencional de escola tirou da criança e do jovem a oportunidade de aprender fazendo, ainda que eles considerem de grande importância o aprendizado da escrita e da língua portuguesa e, recentemente, da “língua geral”. O interesse pela escola indígena veio a partir do momento em que eles perceberam ser possível fortalecer as culturas indígenas, respeitando seus espaços de produção de conhecimento e aprendendo sobre os conhecimentos dos brancos e de outros povos. Os participantes comentaram que, para haver um diálogo intercultural, os conhecimentos da sociedade envolvente não podem se sobrepor às ciências indígenas e que a escola indígena tem um papel importante nesse processo, sobretudo para compreender que a ciência ocidental não é única e soberana.

Por Lirian Monteiro/ISA

Publicado no blog do Instituto Socioambiental.

 

Povos Hupd’äh e Yuhupdeh discutem Educação Indígena e Educação Escolar Indígena em V Seminário local

 

Participantes do Seminário em Barreira Alto, rio Tiquié.
Participantes do Seminário em Barreira Alto, rio Tiquié.

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a Fundação Nacional do Índio (Funai), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), promoveram, entre 18 e 30 de abril, encontros de Educação Escolar Indígena que reuniram diversos clãs Hupd’äh em comunidades: Barreira Alta (rio Tiquié), Santa Cruz do Cabari (igarapé Japu), Pinu Pinu e Waguiá (rio Papuri) e Yuhupdeh, na comunidade de Guadalupe (igarapé Ira). Participaram dos encontros professores Hupd’äh, Yuhupdeh e Tukano, agentes indígenas de saúde, líderes comunitários, jovens e anciãos. Os assessores foram Ivo Fontoura, antropólogo e coordenador do departamento de Educação/ Foirn; Lirian Monteiro, antropóloga/ISA; Sirlene Bendazzoli, da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados/Funai; Claudia Bandera, da Coordenação Geral de Promoção da Cidadania/Funai e Ana Lima, assistente social/Dsei.

A discussão, voltada às especificidades dos Hupd’äh e Yuhupdeh, foi pensada com o objetivo de promover o debate em relação à educação indígena/educação escolar indígena e fortalecer os diferentes espaços de se produzir saberes, visando construir estratégias culturalmente adequadas a esses povos, de recente contato, em relação a educação escolar e, ao mesmo tempo, garantir que seus modos próprios de ensino-aprendizagem sejam respeitados, valorizados e incentivados.

Os seminários específicos aos Hupd’äh e Yuhupdeh fazem parte do projeto “Seminários de Educação Escolar Indígena”, lançado em 21 de janeiro de 2014, na Casa do Saber da Foirn, no âmbito da política do Território Etnoeducacional e da perspectiva da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Pngati), política instituída pelo decreto 7.747, de 5 de junho de 2012. O projeto tem como objetivo realizar um diagnóstico ampliado e aprofundado sobre a realidade da educação escolar indígena nas cinco regiões administrativas do Rio Negro, além de promover o intercâmbio de experiências, propor melhorias e inovações de infraestrutura, metodologias de ensino, formação de professores indígenas, elaboração de projetos políticos pedagógicos indígenas e, de forma mais ampla, aprofundar a discussão político-filosófica da educação escolar indígena e suas especificidades rio negrinas.

Uma das pautas dos seminários foi refletir sobre a educação indígena, lembrando que a ideia de escola chegou a seus territórios como projeto de colonização, desconsiderando os diversos tipos de saberes, ciências e filosofias indígenas. Os Hupd’äh e Yuhupdeh observaram que a escola do Estado tirou a criança e o jovem dos ensinamentos dos pais, tios e avós, contribuindo para que os adultos de hoje esquecessem os diversos tipos de danças e de benzimentos importantes para a pessoa Hup/Yuhup, o que ainda vem ocorrendo com os jovens atualmente. Falaram, com a ajuda dos velhos presentes, que antes de chegar a escola do branco todos aprendiam o que lhes estavam destinado. Quando o velho atribuía um nome à criança, a partir de seu clã, nele já vinha tudo o que aquela criança iria aprender na vida, desenvolvendo esses conhecimentos em seu cotidiano junto a família. Segundo os Hupd’äh, atualmente os jovens não se interessam mais pelos conhecimentos de seus avós, por isso os velhos não querem mais repassar, pois só ensinam se os jovens tiverem interesse em aprender. Como isso não vem acontecendo mais como antes, os velhos morrem e acabam levando todo o conhecimento embora com eles.

Como declarou o professor Ricardo, da comunidade Barreira Alta:

“Os velhos não passam mais seus conhecimentos porque os jovens não se interessam em aprender porque dormem muito. Eu aprendi a benzer e dançar Capivaiá porque sempre acompanhei meu pai nas rodas de ipadu. Acompanhei meu pai nos momentos em que ele estava benzendo e hoje eu mesmo sei benzer meus filhos.”

Professores e demais lideranças lembraram que antes de chegar a escola eram bem unidos e comiam todos juntos. Os benzimentos eram repassados nos dias de caxiri e em rodas de ipadu, dia e noite, para que seus filhos aprendessem. Destacaram que já perderam muitos conhecimentos, não possuem mais zarabatana, mas que ainda possuem arco e flecha e diversas técnicas de caça. Observam ainda o ritual do jurupari e dançam também o Karissu, mas se preocupam com seus filhos que cada vez menos se interessam em participar só valorizando as festas com forró e principalmente a banda “Forroboy”. Contudo, as crianças desde pequenas já aprendem a fazer armadilhas para caçar calangos e à medida que vão crescendo aprimoram suas armadilhas de caça.

Dabucuri em Santa Cruz do Cabari - Igarapé Japu. Foto Lirian Monteiro
Dabucuri em Santa Cruz do Cabari – Igarapé Japu. Foto Lirian Monteiro

Durante o encontro os Hupd’äh e os Yuhupdeh demonstraram possuir um grande interesse pela escola indígena por considerarem que esta respeita mais os conhecimentos indígenas e também traz os conhecimentos não indígenas e, sobretudo, tenta inserir os professores indígenas, de suas próprias comunidades. Contudo, observam que a Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira não vem valorizando esse princípio da educação escolar indígena, ao contratar professores de outras comunidades – sem levar em consideração as dificuldades que os pais dos alunos possuem para sustentar um professor de outro local.  Puderam apresentar suas experiências de, aproximadamente nove anos, como professores. Sendo que antes as crianças Hupd’äh tinham somente professores de outros grupos étnicos. Como os Hupd’äh possuem experiências recentes na prática de ensino em modelo escolar, apontaram como principais dificuldades enfrentadas a falta de apropriação em metodologias de ensino que promovam a pesquisa e o processo de letramento em língua própria bem como o ensino na língua portuguesa, afirmando a importância de se realizar oficinas pedagógicas para a elaboração de materiais didáticos de qualidade para o trabalho com leitura e escrita em língua hup/yuhup, tukano e português para crianças e jovens.

A importância do letramento das crianças Hupd’äh, primeiramente em sua própria língua, foi bastante ressaltada. Nesse sentido, os professores e demais lideranças Hupd’äh solicitaram apoio à Funai para a realização de oficinas pedagógicas que possibilitem a produção de material didático junto aos professores Hupd’äh. Os mesmos consideraram a importância de se produzir material, analisando que sem textos escritos na língua torna-se muito difícil o trabalho de letramento. Informaram também que não adianta só escrever na lousa, pois as crianças gostam de livros bonitos e com desenhos, assim elas ficam mais animadas em aprender a ler e escrever.

Os Professores informaram que já ouviram bastante sobre a proposta da educação escolar indígena durante magistérios indígenas, seminários, encontros, projetos de educação. Sabem que é lei e direito dos povos indígenas, mas que a Secretaria Municipal de Educação não respeita os calendários específicos das comunidades e exigem que se cumpra a carga horária da cidade, alegando ser uma determinação do Ministério da Educação. Uma das perguntas apresentadas, a partir das reflexões em trabalhos de grupos, foi como fazer que a escola – no sentido indígena – incentive os conhecimentos que são produzidos em outros espaços, como na roça, em expedições de caça e coletas de frutos, em rodas de ipadu, durante os rituais das flautas sagradas. Como fazer com que os jovens se interessem pelos conhecimentos de seus pais e avós. Para tanto destacaram a importância dos 200 dias letivos/ano – exigidos pela secretaria municipal de educação, mas não exigidos na legislação da Educação Escolar Indígena- contemplarem as atividades cotidianas fora da escola a partir de um calendário específico, construído pela comunidade, visando promover os diversos espaços de saberes em seus territórios. E que o espaço da escola, que consideram importante para aprender sobre o conhecimento de outros povos – seja em períodos que não atrapalhem os processos educacionais propriamente Hupd’äh e Yuhupdeh.

Outro tema discutido de forma inicial, durante o seminário, foi sobre os Direitos Sociais. Como proposta de atividade, foram divididos três grupos de trabalho para realizar mapeamento de percursos na cidade de São Gabriel da Cachoeira, visando destacar os locais que costumam frequentar na cidade, tais como instituições, locais de lazer, comércios e locais de estadia. O mapeamento desses espaços citadinos, frequentados por Hupd’äh e Yuhupdeh foi importante para iniciar um debate, ainda incipiente, a cerca dos programas sociais do governo e seus impactos no modo de viver desses povos. Os programas sociais, como o bolsa família e auxílio maternidade vem culminando numa crescente descida dos Hupd’äh e Yuhupdeh à cidade, que por sua vez não possui estrutura para atender de forma adequada e eficiente os povos indígenas das comunidades.

Durante os debates dos grupos registrou-se como principal queixa dos Hupd’äh, Yuhupdeh e Tukano a morosidade no atendimento da cidade para aquisição de documentos e os auxílios do governo, o que os fazem perder muito tempo na cidade, que não lhes oferecem boas condições de estadias. Além desse problema principal, ficam doentes muitas vezes, sem alimentação adequada e expostos aos diversos tipos de violência da cidade. Consideraram de grande urgência que São Gabriel da Cachoeira se estruture para atender bem todos os grupos indígenas que chegam de suas comunidades, enfatizando que o que querem é ter acesso aos documentos e aos programas do governo sem precisar sofrer por longos meses na cidade, enfatizando a importância de se retornar à comunidade para dar continuidade nos cuidados com suas roças e casas. Também ressaltaram que gostam de passear na cidade, mas que é preciso muito cuidado e um tempo curto de estadia, por ser a cidade um lugar de muita doença e confusões.

Por Lirian Monteiro – antropóloga/ISA

Terra e Cultura para o bem viver indígena

Blog da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro

Blog II da EIBC Pamáali 2014 a 2016

Bem-Vindo ao blog II da escola Pamáali, localizada no Médio Rio Içana-Alto Rio Negro. Aqui você encontra notícias da região do Alto Rio Negro sobre Educação Escolar Indígena e outros assuntos. Deixe seus comentários!

CAIMBRN

Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro

Blog do Povo Baniwa e Koripako

Nossa presença na Web

Antropologia médica

Diálogos entre pesquisadores latinoamericanos

Lúcio Flávio Pinto

A Agenda Amazônica de um jornalismo de combate

Uma (in)certa antropologia

O tempo, o clima e a diferença

Rio Negro

Blog do Ray Baniwa